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UMA VIDA PEQUENA: a nota mais difícil que já dei pra um livro

(Essa primeira parte é LIVRE de spoilers 🏳️)

Eu tive bastante dificuldade de dar nota pra esse livro. Terminei tarde numa noite e no dia seguinte ainda não tinha chegado a uma conclusão; o que é raro pra mim, que geralmente já sei o que sinto geralmente antes de fechar a última página. Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara, não me deu esse luxo.

Eu gosto de histórias tristes. Comecei a lê-lo por causa disso, inclusive (pode parecer masoquismo, mas sinto que chorar faz eu me sentir mais viva de alguma forma, como se eu experimentasse o ápice das emoções). Mas também tenho meus limites, e Uma vida pequena os testou com uma certa… determinação. Me emocionei, chorei, mas fiquei principalmente chocada, com raiva e cansada. É o tipo de leitura que você não consegue parar e da qual, ao mesmo tempo, precisa descansar.

Antes de entrar nos detalhes: estamos falando de um fenômeno literário de respeito. Uma vida pequena ganhou o Prêmio Kirkus e foi finalista do National Book Award e do Man Booker Prize. Desde então, foi adaptado para o teatro pelo aclamado diretor Ivo van Hove e, recentemente, os leitores do New York Times o indicaram — ao lado de finalistas como Amada, de Toni Morrison, e 1984, de George Orwell — como melhor livro dos últimos 125 anos. (A votação, com mais de 200 mil leitores, foi vencida por O sol é para todos, de Harper Lee, um dos meus favoritos da vida. Já escrevi sobre ele aqui no blog e deve ser o livro que mais indico pras pessoas.)

Então, se trata de uma obra que divide crítica, divide leitores e, pelo que descobri, divide a própria cabeça de quem lê:

Quando quatro amigos de uma pequena faculdade de Massachusetts se mudam para Nova York em busca de uma vida melhor. Eles se veem falidos, sem rumo e amparados apenas por sua amizade e por suas ambições.

Willem, lindo e generoso, é aspirante a ator; JB, nascido no Brooklyn, é um pintor perspicaz e às vezes cruel que busca de todas as formas ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado que trabalha numa empresa de renome; e o solitário, brilhante e enigmático Jude funciona como o centro gravitacional do grupo.

Com o tempo, o relacionamento deles se aprofunda e se anuvia, matizado pelo vício, pelo sucesso e pelo orgulho. No entanto, seu maior desafio, como cada um passa a perceber, é o próprio Jude, um litigante extremamente talentoso na meia-idade, porém, ao mesmo tempo, um homem cada vez mais atormentado, a mente e o corpo marcados pelas cicatrizes de uma infância misteriosa, e assombrado pelo que teme ser um trauma tão intenso que não só não será capaz de superar — mas que vai definir sua vida para sempre.

Não à toa, por ter quase 800 páginas, o livro perpassa as vidas desses amigos ao longo de muitas décadas, então sobre serem universitários falidos é, literalmente, só o começo da história. Mas a sinopse tem uma razão pra ser mais vaga, que é manter ao máximo em segredo o passado de Jude, enquanto, pouco a pouco, vamos conhecendo-o (ou melhor, desvendando-o).

Eu diria, aliás, que Uma vida pequena é sobre Jude, enquanto os demais personagens o orbitam em mais ou menos intensidade ao longo da narrativa. Malcolm, por exemplo, na minha opinião, se mostrou extremamente coadjuvante: quase tudo o que o envolvia soava mais pra fazer a narrativa de Jude avançar do que pra existir por conta própria. Não estou dizendo que ele e os outros três amigos não sejam personagens tridimensionais, mas, com exceção do Willem, suas vidas são pouco abordadas a partir da metade do livro (ou até antes disso). E isso não é necessariamente uma crítica, apenas um ajuste de expectativas.

Uma vida pequena é uma história sobre um homem específico, sua história específica, e sobre como essa história molda tudo e todos ao redor dele. Principalmente, ele próprio.

Yanagihara escreve bem. Muito bem. A prosa tem textura e ritmo, tem uma capacidade impressionante de criar intimidade. Faz você esquecer um pouco que tá lendo um livro e começa a achar que alguém está te contando uma história, sentada numa mesa com você, a meia luz.

Mas.

Essa mesma prosa pode ser cansativa muitas vezes. A narrativa se arrasta, principalmente perto do fim, e tive a sensação de que o livro poderia ter dito o que tinha pra dizer com um pouco menos de páginas. Com tantas, há momentos em que a leitura vira uma maratona emocional que vai sugando sua energia sem necessariamente entregar algo novo em troca.

Ainda mais quando a história é recheada de sequências extremamente pesadas, e esse é o ponto mais problemático pra mim.

Não sei se esse cansaço era intencional da autora ou só colateral. Suspeito um pouco dos dois.

 

Dor e prazer andam juntos

Se no mundo existe a mais horrível das mazelas, então também existe o amor mais verdadeiro. Acho que essa é a frase que melhor resume o que Uma vida pequena tenta dizer e, em vários momentos, consegue.

Isso vai total ao encontro da capa mais conhecida do livro: uma foto em preto e branco de um homem com os olhos fechados e uma expressão que todo mundo provavelmente interpreta como dor ou choro. Mas a imagem é, na verdade, o “Orgasmic Man”, de Peter Hujar : um homem em êxtase. Pra mim, ela traduz essa tese central de que dor e prazer podem coexistir; não no sentido de que, pra ser feliz, você precisa sofrer, mas no sentido simples de que a vida é feita de prazeres e desprazeres . (Ainda que, no caso do Jude, “desprazer” seja um grande eufemismo.)

Jude encontrou dor e sofrimento absurdos na fase mais essencial da vida de qualquer ser humano: a infância. E “a infância é um chão que pisamos a vida inteira”, né? É nela que se molda a forma torta como ele se vê, e que o acompanha durante toda a vida. No entanto, ele também encontrou as melhores pessoas que poderia encontrar pra fazê-lo enxergar o oposto: Willem, Harold, Andy, Julia.

Acredito que a intenção da autora seja essa dualidade. Mostrar que, mesmo no fundo do poço, existe espaço pra amor, ternura, acolhimento, pertencimento. Em alguns momentos, eu comprei. Mas em outros — vou chegar lá —, o livro me pareceu mais interessado em empilhar sofrimento até essa tese ficar semienterrada embaixo.

Às vezes a gente come o pão que o diabo amassou. Jude comeu a padaria inteira

(⚠️ A partir daqui, SPOILERS)

Eu sei que sobreviventes de abuso existem, óbvio. Eu sei que histórias reais são, muitas vezes, mais cruéis do que ficção. Mas em algum momento da leitura, eu comecei a contar — quase como uma piada nervosa — o número de horrores vividos por Jude.

Ele é abusado sexualmente e espancado pelos irmãos do mosteiro onde foi abandonado bebê. Foge com o irmão Luke (lê-se: é sequestrado), que também o estupra e o VENDE a outros pedófilos, como um cafetão. Vai parar num orfanato — onde, adivinha, a coisa se repete. Foge de novo, e vê na prostituição a única forma de juntar dinheiro pra continuar fugindo. (O próprio Jude admite, depois, que poderia ter parado assim que conseguiu o suficiente pra uma passagem de ônibus, mas continuou pegando carona com caminhoneiros e se submetendo à violência sexual). Quando inevitavelmente contrai uma doença venérea, desmaia num posto de gasolina e é “resgatado” não por alguém bacana, mas por um desgraçado que o tranca no porão de casa, trata sua doença só pra depois também abusá-lo e torturá-lo, antes de jogar seu próprio carro contra ele. Já adulto, a única pessoa com quem Jude tenta um relacionamento amoroso (antes do Willem) é, veja só, um estuprador e abusador. De todas as pessoas do mundo.

Puta merda, sabe. QUAL A CHANCE?

Esse tipo de narrativa é chamada de trauma plot: uma estrutura em que o trauma não é apenas parte da história, mas a história inteira. Novamente: histórias reais são, muitas vezes, mais cruéis do que ficção, mas fiquei pensando se existe um limite narrativo entre representar a dor e fazer dela um espetáculo. Em algum ponto entre o mosteiro, o orfanato, o porão do dr. Traylor, o atropelamento, Caleb, os cortes que Jude faz em si mesmo e sua ideação suicida, o livro deixou de me chocar e passou a me cansar um pouco.

Fiquei com uma sensação esquisita de estar lendo alguém testando até onde o leitor suporta.

E se o problema do Jude é que ele sofre demais, o problema dos amigos dele é que eles aguentam tudo demais (as mentira, as promessas que ele quebra, a resistência em fazer terapia). De forma quase canonizável, rs. Eu SEI que foi monstruosamente difícil pro Jude lutar contra o desejo de se machucar, pra cogitar contar toda a sua história pra um desconhecido, mas acho que seria mais crível se tivesse havido mais embates com quem está de fora.

Harold e Julia, por exemplo, são compreensíveis a um ponto que beira o sobrenatural (ainda mais quando paramos pra pensar que Harold só descobre sobre o passado de Jude no fim do livro). Andy, o médico, atende Jude em horários impossíveis, aguenta recusas constantes de tratamento, abraça quando precisa abraçar, briga quando precisa brigar — mas perdoa logo depois. JB, que tem suas crises, é o personagem com mais arestas, mas ainda assim volta correndo quando Jude precisa. E o Willem… bom, Willem é praticamente um personagem sem defeitos, o que pra mim já é um defeito por si só.

Eu já disse aqui que precisei me lembrar várias vezes ao longo da leitura que o Jude está numa situação praticamente impossível pra gente se colocar no lugar, e que por isso eu deveria engolir minhas críticas pra não parecer alguém mais suja que o diabo. Mas amigos e familiares de pessoas em sofrimento intenso também são humanos. Eles cansam, eles erram, eles pisam na bola, eles têm momentos em que não conseguem dar conta, e essa é uma parte importantíssima de qualquer rede de apoio real. No livro, os amigos do Jude amam de uma forma quase abstrata.

Veja bem, acho improvável não se compadecer com o Jude a menos que você seja bem insensível. Mas eu também tive raiva dele em vários momentos, e essa raiva, pra mim, é um sinal de que o livro funcionou em alguma camada, porque o tratei como uma pessoa real, com defeitos reais (mais que o resto dos personagens).

Só que a narradora onisciente do livro parece não querer que a gente sinta essa raiva. Toda vez que o Jude age de forma “indigesta”, a narrativa imediatamente o reposiciona como vítima. O foco volta pra dor passada, pra inevitabilidade do trauma, pra impossibilidade dele agir de outra forma.

É uma piedade que, de certa maneira, infantiliza o personagem; que retira dele a possibilidade de ser uma pessoa completa, com escolhas reais (mesmo que limitadas por tudo o que aconteceu), com responsabilidade mínima sobre as próprias ações.

Sobreviventes de abuso são pessoas, e, como eu disse, pessoas têm defeitos: agem mal às vezes, ferem quem ama, podem ser injustas. Tratá-los como santos sofredores não é compaixão, mas uma forma sutil de desumanização, não? E Uma vida pequena, na minha visão, cai um pouco nessa armadilha.

A autora vs. terapia e a escolha narrativa

Tem uma coisa que eu fui pesquisar enquanto lia e que me ajudou a entender melhor uma das escolhas mais estranhas do livro: Hanya Yanagihara é publicamente cética em relação à psicoterapia. Em entrevistas, ela já disse que se recusa a fazer terapia, mesmo diante da insistência de pessoas próximas — incluindo o melhor amigo dela, a quem Uma vida pequena é dedicado e cujo círculo social inspirou as amizades do livro.

Sabendo disso, alguns detalhes da história ganham outra camada. O torturador mais sádico de Jude — dr. Traylor — é um psiquiatra. Não sei se é coincidência, mas certamente é irônico. E será que o fato de o Jude se recusar terminantemente a procurar ajuda profissional ao longo de décadas, mesmo com todo mundo implorando, deixa de parecer só uma característica psicológica do personagem e começa a parecer uma posição da autora sobre a própria utilidade da terapia?

Em entrevistas, Yanagihara explicou que escreveu Uma vida pequena pra explorar os efeitos duradouros do abuso e do trauma, e que queria um personagem que nunca melhora e jamais aceita ajuda. Olha, eu acho super crível alguém como Jude; faz total sentido pra construção do personagem. Mas foi uma escolha narrativa dela, e não uma fatalidade da história. O desfecho do livro poderia ter sido completamente diferente se a autora tivesse permitido outro caminho.

A narrativa foi construída pra mostrar que algumas recuperações são impossíveis, que ajuda profissional é inútil e que algumas pessoas simplesmente não podem ser salvas. É uma tese. Uma tese pesada, com a qual a gente pode concordar ou discordar — mas que merece ser reconhecida como tese, não como verdade universal dentro de uma ficção.

E eu defendo totalmente a ideia de que somos livres pra escrevermos sobre o que e sobre quem quisermos (vale pra qualquer tipo de arte), mas foi inevitável isso virar uma nota de rodapé na minha cabeça, que precisei transformar em subtópico:

Quem pode escrever sobre quem

Tem um debate antigo sobre quem tem legitimidade pra escrever sobre quem, e Uma vida pequena virou meio que um para-raios disso. Hanya Yanagihara é uma mulher cis presumidamente heterossexual (com a ressalva de que “dormiu superficialmente com mulheres” na faculdade Smith), e seu livro foi celebrado por críticos como o “grande romance gay” tão esperado pela literatura contemporânea. Os quatro protagonistas são homens, três deles em relacionamentos com outros homens em algum momento da história.

Inclusive a maioria absoluta dos personagens importantes também é homem porque, pra autora, só homens têm complexidade pra render boas histórias. 👁️👄👁️(Em suas próprias palavras: Uma vida pequena seria um livro chato se os quatro amigos fossem mulheres.)

Mas Yanagihara defendeu obstinadamente seu direito de escrever sobre o que quiser. Repito: ela tem razão; repudio a ideia de que somente mulheres possam criar obras sobre mulheres, que só atores LGBT+ possam ter papéis LGBT+ e por aí vai.

Mas eu particularmente fico curiosa por essa ser ser quase uma constante nos romances dela, ainda que, neste, Willem nunca cogite ser bissexual (ele só sabe que “não é gay”) e que a autora aparentemente não saiba o que significa ser uma mulher lésbica (ela menciona duas ou três ocasiões em que lésbicas ficaram a fim do Willem ou do Jude e o próprio Willem tendo “namorado uma lésbica” no passado). Tipo, MONA?

Juro que isso não influenciou minha leitura da história, mas me causou, sim, um ranço.

Trauma porn ou retrato da vida como ela é?

Eis a pergunta que me perseguiu durante toda a leitura e que, no fundo, é o cerne dessa resenha: Uma vida pequena é um retrato honesto da vida como ela é, ou é trauma porn (sofrimento transformado em espetáculo)?

Vou defender os dois lados, porque ainda estou em cima do muro.

Assim como a autora, acredito que existam situações emocionais irreparáveis. Deve haver sobreviventes de abuso severo que nunca se recuperam de verdade, mesmo com tratamento. A ideia de que todo trauma tem cura, de que toda ferida cicatriza se você se esforçar o suficiente, é uma fantasia reconfortante que a vida real desmente fácil, APESAR de eu gostar de pensar que, na imensa maioria das vezes, com bastante terapia e tratamento psiquiátrico, é claramente possível uma virada de jogo. Só estou falando que não dá pra afirmar que essas exceções não existam.

Dito isso, há então algo de corajoso em Yanagihara se recusar a entregar a redenção que o leitor implora. É amargo, mas honesto.

Em contrapartida, como já falei, em algum momento a dualidade que a autora parecia querer explorar — prazer e sofrimento coexistindo — some embaixo do volume de horrores. O sofrimento deixa de iluminar alguma verdade sobre a condição humana e passa a se sustentar em si mesmo, acumulando-se como se o objetivo fosse só chocar, só devastar.

E isso vai além do próprio Jude. Porra, o Willem precisava morrer? Na moral? Juro por deus que eu já tava tão calejada que revirei os olhos quando o acidente de carro acontece. Lá vem mais uma camada que a autora quis socar no nosso rabo pra deixar a história ainda mais triste. Me causou uma frustração parecida com a que tive assistindo Cidade dos anjos: aquele filme em que o anjo vivido por Nicolas Cage renega a imortalidade pra ficar com a personagem da Meg Ryan, uma humana por quem se apaixona. Logo depois que eles finalmente consumam o amor, ela morre de uma forma absurdamente idiota. Willem morrer tem o mesmo gosto: a felicidade do Jude existindo apenas pra ser arrancada, porque nesse livro a felicidade é sempre uma armadilha.

 

Quando terminei Uma vida pequena, chorei por um ou dois minutos. Por alívio, de certa forma, de ter conseguido finalizar, pelo desfecho do Jude (por mais previsível que fosse), pelo Harold, pelo fim da jornada em si, como uma despedida.

Meu saldo final: eu gostei. Não amei, não odiei, gostei — com ressalvas grandes, como deu pra perceber. E só consegui bater o martelo na nota agora que cheguei ao fim deste texto: a escrita merece mais; a experiência emocional, dependendo do dia, mereceria menos.

Mas uma coisa que já tenho certeza é que eu não tenho vontade de recomendar esse livro, principalmente pra quem não está com a cabeça nos eixos. Afinal, depois de quase 800 páginas martelando que existem pessoas que não podem ser salvas, eu imagino que não seja difícil pra um leitor mais fragilizado fechar o livro e se perguntar se ele não seria uma dessas pessoas, e que talvez já fosse tarde demais.

Não acho que essa é uma ideia que todo mundo deveria levar pra casa.

 

Todos os “ses” mais assustadores envolvem pessoas. Todos os bons também.

Nota:

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