Olhei pro espaço branco que havia neste post por um longo tempo antes de começar a escrever. É que acabei de ler O sol é para todos ontem e as sensações maravilhosas que me despertaram ainda estão frescas no meu coração. Talvez eu possa dizer, antes de qualquer coisa, que esse livro definitivamente é um dos melhores que já li até hoje.
Comprei a edição de 1983 em um sebo online. Veio com a lombada colada com durex, uma dedicatória para uma moça chamada Ondina e as páginas bastante amareladas, com um leve cheirinho de mofo, o que provavelmente me ajudou a ser melhor transportada para os anos 1930, período onde se passa a história de O sol é para todos.
Ah, SEM spoilers aqui. 🙂
Parte I: as aventuras dos irmãos Finch
O livro é todo narrado sob o ponto de vista de Jean Louise “Scout”, uma menina de 6-8 anos (já que da primeira à última página se passam alguns anos), que vive em uma cidadezinha rural fictícia do estado do Alabama chamada Maycomb, atingida pela Grande Depressão.
Ela é irmã de Jem, 3 anos mais velho, e filha do advogado Atticus Finch, que batalha para criar os filhos sozinho depois que a esposa morrera, contando com a ajuda da empregada Calpurnia, que trabalha para ele desde antes das crianças nascerem.
Maycomb é uma típica cidade do sul do território americano, tremendamente racista, onde praticamente todos os habitantes se conhecem. Na primeira parte do livro, acompanhamos as peripécias de Scout, Jem e seu novo amigo Dill – sobrinho da vizinha, Mrs. Rachel, que sempre aparece nas férias de verão – por entre as ruas e quintais de Maycomb, fazendo-nos entender a dinâmica do lugar e a moralidade de uma sociedade superconservadora.
Nesse contexto, podemos apontar a própria Scout como uma pequena transgressora: espoleta e sem papas na língua, só aceita brincar com os meninos se for considerada uma igual e detesta usar vestidos, quando uma “dama” era tudo o que uma mulher poderia ser naquela época.
Com uma narrativa muito bem amarrada que segue a personalidade de Scout, de nuances bem-humoradas, sensíveis e adoravelmente sarcásticas, a autora Harper Lee consegue transformar qualquer detalhe do cotidiano dos irmãos em algo fantástico.
O sol é para todos até parece nome de livro de autoajuda; talvez, no fim das contas, realmente seja: ele diz muito sobre amadurecimento, esperança e a convivência entre os diferentes. O título original é To kill a mockingbird, ou Para matar um mockingbird.
Mockingbirds não existem no Brasil, mas no livro foram traduzidos como “pássaros imitadores” e aparecem em um trecho em que Atticus, após presentear os filhos com espingardas de ar comprimido, diz que podem atirar em qualquer coisa, menos nesses pássaros, pois seria um pecado: afinal, “eles nada fazem a não ser cantarem para alegrar nossos corações”.
Scout se lembra desse ensinamento ao final do livro, nos fazendo entender melhor a analogia desse título com a história, e é lindo.
Parte II: o caso Tom Robinson
– Escute, se você conseguir aprender um pequeno truque, irá se relacionar melhor com todo tipo de gente: só entenderá realmente uma pessoa quando conseguir ver as coisas do ponto de vista dessa pessoa.
– Como é?
– Até que você se enfie na pele da pessoa e dê umas voltas com ela.
– (…) eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.
Essa parte do livro é mais focada em como o racismo e o caso afetam as vidas dos Finch, principalmente das crianças. Eu ainda não disse, mas O sol é para todos foi escrito em 1960, quando o preconceito ainda era fortíssimo por aquelas bandas.
Harper Lee deu um belo tapa de luva em todo mundo, esfregando na cara de quem fechava os olhos para o fato de que os homens não nascem iguais e possuem privilégios, sim. Não é à toa que o livro ganhou o prêmio Pulitzer no ano seguinte e se transformou num clássico. Infelizmente, a obra continua bastante atual.
Quando Lula começou a andar em nossa direção, Calpurnia disse:
– Fique onde está, negra.
Lula parou, mas retrucou:
– Você não tinha nada de trazê crianças branca pra cá. Elas têm a igreja delas, nós temo a nossa. Essa é a nossa igreja, não é, Mrs. Cal?
– O Deus é o mesmo, não é? – replicou Calpurnia.
A adaptação cinematográfica
Meu Deus, a Scout é do jeitinho como eu a imaginava. O filme de 1962, com Gregory Peck no papel de Atticus, é ótimo e bastante fiel ao livro, apesar de suprimir várias coisas (que novidade).
A interpretação de Peck lhe presenteou com o Oscar do ano, mas O sol é para todos também ganhou o prêmio de Melhor roteiro adaptado e Direção de Arte, além de ter concorrido a Melhor atriz coadjuvante (Mary Badham, quem fez Scout), Melhor filme, Melhor diretor, Melhor fotografia e Melhor trilha sonora.
Ah, e tem na Netflix! 💛
– Atticus… – começou Jem, desolado.
Já no portal, ele voltou-se.
– O que é, filho?
– Como eles puderam fazer isso? Como é que eles puderam?
– Eu não sei, mas fizeram. Já fizeram isso antes, fizeram essa noite e farão outra vez, e quando isso acontece… parece que apenas as crianças choram.
Espero que eu tenha convencido vocês a lerem O sol é para todos. Eu estou completamente apaixonada; foram várias as partes que me emocionaram, mas ao final chorei não porque há um final triste ou algo assim, e sim porque estava me despedindo daqueles personagens que me acompanharam nas minhas viagens de ônibus até o trabalho.
Isso é a melhor coisa que tiro de uma boa leitura. E desculpem as várias citações, mas não pude evitar.
– (…) se só existe um tipo de gente, então por que é que eles não se entendem? Se são todos iguais, então por que se desprezam tanto?
Nota:





Deixe um comentário