Eu só não falo que Pluribus foi a melhor série de 2025 porque tivemos Adolescência e gosto é gosto, mas tá aqui registrado que ela foi meu TOP 2 ✨
Os dois primeiros episódios quebraram recorde de audiência pra drama no Apple TV e hoje já é a série mais assistida do streaming, inclusive superando minha querida e amada Ruptura. No entanto, pra minha surpresa, vi Pluribus dividir muito opiniões. Achei que seria uma união de todas as tribos, assim como fez o Norvana, mas virou uma coisa “ou você ama, ou você odeia”.
A principal reclamação é sobre o ritmo da série. Mas que culpa Pluribus tem se o cérebro das pessoas foi carcomido pelo TikTok e o público agora espera que aconteça um zilhão de coisas em poucos minutos?
E olha que nem sou só eu que pensa isso: o próprio showrunner disse em entrevista que acha essa característica de Pluribus uma “vantagem em um mundo de edição acelerada e vídeos do TikTok que duram apenas um minuto. Se o mundo inteiro se movesse nesse ritmo de narrativa, seria muito triste pra mim. Acho que existe uma certa porcentagem da audiência — gosto de pensar que é grande o suficiente pra sustentar programas como este — que está pronta pra um ritmo mais lento”.
Particularmente, eu senti cada episódio passar voando. Era sempre um “JÁAA?” quando chegavam ao fim. Eu poderia assistir a 100 episódios seguidos de Pluribus de boassa, sem piscar, sem ir ao banheiro, sem tomar banho, mas jamais sem tomar um açaí, por causa de todos estes pontos abaixo:
1. Pluribus tem uma ótima premissa

Eu dei o play sem saber de nada, exceto por uma misteriosa e intrigante frase: “A pessoa mais miserável do mundo precisa salvar o mundo da felicidade.” Só.
Aliás, tenho gostado muito desse meu novo hábito de assistir coisas sem ver sinopse, muito menos trailer. Sou duplamente impactada pela história que se desenrola. Fiz assim com Pluribus, e acho que foi a melhor decisão.
Precisei chegar ao fim do primeiro episódio (um dos melhores pilotos que vi nos últimos anos, inclusive) pra entender completamente sobre o que é a história: um vírus alienígena causa “felicidade coletiva” e uma mente de colmeia em quase toda a humanidade, exceto por uma pessoa até então — a protagonista Carol Sturka, uma escritora amarga que vai querer a qualquer custo o mundo normal de volta.
Já é um clássico instantâneo, porra.
2. É uma série do Vince Gilligan

Se esse nome não te diz nada, vamos lá: Vince Gilligan é o cérebro por trás de Breaking Bad, conhecida por ser a melhor série feita na história moderna, e de Better Call Saul (que ainda não assisti, mas está na minha lista).
Aqui, ele troca o crime por ficção científica, mas mantém aquilo que faz melhor: personagens moralmente ambíguos e escolhas desconfortáveis, sem explicar demais e sem subestimar quem assiste, confiando tanto no silêncio quanto em diálogos meticulosos pra construir a narrativa.
Ah, e tem dedo de mais gente da produção de Breaking Bad em Pluribus. A equipe de filmagem é a mesma, incluindo o diretor de fotografia e o compositor Dave Porter, que adaptou sua trilha sonora pra um tom sci-fi único.
3. Um Frankenstein de gêneros que funciona

É ficção científica? É drama psicológico? Sátira social? Thriller? Terror existencial? Comédia estranha que te faz rir e depois se sentir culpado por ter rido? Sim.
Pluribus mistura tudo isso sem perder a mão. A trama sobre um vírus que impõe felicidade coletiva cria um desconforto existencial, misturando utopia com colapso de identidade. O resultado é uma série mais próxima de um ensaio filosófico do que de uma ficção sci-fi convencional (o que é um baita elogio).
4. “Show, don’t tell”: o visual conta história sozinho

Pluribus tem uma direção de fotografia impecável, com paletas metálicas, ambientes estéreis e uma estética que evoca frieza tecnológica e isolamento emocional. Cada cena é um espetáculo, cada take foi meticulosamente pensado pra costurar os episódios.
É o tipo de produção que faz jus ao selo “premium” da Apple TV, em que nada é genérico ou gratuito, pelo contrário: a série foi feita pro tipo de espectador não passivo, que sabe que a história está sendo contada também através dos enquadramentos, dos silêncios, das cores. É isso que basicamente define o “show, don’t tell” (“mostre, não conte”): uma técnica de escrita que envolve demonstrar sentimentos e situações através de ações e detalhes, em vez de apenas dizer à audiência o que está acontecendo.
Existe, inclusive, uma teoria das cores azul e amarela que fazem todo sentido dentro de Pluribus. Elas sempre aparecem em contraste uma com a outra, simbolizando o conflito entre Carol e o resto da humanidade: o amarelo representando o individualismo, enquanto o azul representa a “colmeia”. É só perceber como Carol frequentemente está associada à cor amarela, principalmente pelas roupas, e tudo relacionado aos “Outros” é azul. Quando Carol se aproxima da colmeia, tem algo azul no seu traje; mesma coisa quando a colmeia tenta se conectar com ela.
Pra quem já assistiu a série, [ spoiler ] lembra da conversa que Carol e Zosia têm na cozinha, quando esta última fala de suas lembranças como a “verdadeira” Zosia? Ela revela que amava sorvete de manga. Uma fruta amarela. E qual a cor das roupas que elas estão usando depois de passarem a noite juntas? Verde. Porque amarelo + azul = verde 🤌

Francamente? Um respiro em meio ao excesso de lixo lançado em escala pela Netflix conteúdo descartável.
5. Rhea Seehorn (e um elenco afinadíssimo)

Inicialmente concebida com protagonista masculino, Pluribus mudou de rumo após Vince Gilligan trabalhar com Seehorn em Better Call Saul. Ele reescreveu o papel de Carol Sturka especificamente pra ela, garantindo seu compromisso antes de avançar com produção e equipe. Aos 53 anos, Seehorn assumiu seu primeiro papel principal, e recentemente ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Série Dramática por ele, no Critics Choice.
A lenda entrega tudo e um pouco mais, com uma atuação cheia de vulnerabilidade, ironia e um cansaço existencial extremamente crível. Muita gente acha a Carol um porre, e de fato é uma personagem “difícil” (duvido que falariam isso se ela fosse um homem), mas Rhea é brilhante ao fazer com que tenhamos empatia em diversas situações, revelando sua fragilidade especialmente em detalhes da expressão facial e movimentos do corpo.
O elenco, incluindo Karolina Wydra e Carlos-Manuel Vesga, acompanha o tom esquisito da série com precisão cirúrgica e química perfeita, com nuances emocionais que sustentam o peso dessa narrativa tanto absurda quanto humana.
6. Mistério que instiga teorias

Pluribus planta perguntas o tempo todo, e raramente entrega respostas fáceis. O vírus é uma arma alienígena pra conquistar planetas pacificamente? Dá pra reverter a mente original através das ondas do rádio? Aquilo realmente era uma bomba atômica?
Cada episódio adiciona uma camada nova, um detalhe estranho, um olhar que dura meio segundo a mais. Nem tudo precisa ser explicado imediatamente, é óbvio; mas não estamos falando do finado Lost aqui. Em Vince Gilligan I trust. Não tenho dúvidas de que ele está entregando uma história redonda, com início, meio e fim, assim como fez maravilhosamente em Breaking Bad. Priorizando qualidade sobre quantidade.
Mas a segunda temporada só deve ir ao ar em 2027, e enquanto isso Pluribus empurra a gente pra fóruns, teorias, discussões e interpretações possíveis. Assim como séries clássicas, ela deixa o público matutando sobre livre-arbítrio, solidão, resistência. Essa profundidade gera discussões filosóficas e interpretações variadas, tornando a experiência ainda mais imersiva e reflexiva, o que nos leva ao próximo motivo:
7. Temas profundos, atuais e incômodos

Qual o preço da felicidade? Podemos ser felizes na ilusão, sem liberdade ou individualidade? Ou no isolamento?
Uma das únicas coisas que me lembro quando fiz um curso de crítica cinematográfica, é que se sua interpretação sobre uma obra fizer sentido dentro do contexto, ela é válida.
E quando consideramos isso em Pluribus, a série traz diversas alegorias. Ela pode estar dialogando com discussões contemporâneas sobre conformidade, empatia artificial, individualidade x coletividade (a mais óbvia), positividade tóxica e até o medo absurdo que a sociedade tem do sofrimento. Quem somos nós sem nossas dores? O que sobra quando a tristeza, o conflito e a frustração são apagados?
Ou seja, é sci-fi, mas é também um espelho bem pouco confortável da nossa época.
No início, muita gente teorizou que tudo poderia ser uma grande alegoria à inteligência artificial generativa, que replica conhecimento humano sem criatividade original, erodindo individualidade e privacidade. Mas na real, a premissa de Pluribus surgiu por volta de 2016, durante as caminhadas de almoço de Gilligan na produção da terceira temporada de Better Call Saul, bem antes do hype das IAs como ChatGPT, em 2022. Ele nega, portanto, uma intenção direta, mas reconhece a ressonância.
Muita coisa cabe aqui. De toda forma, Pluribus ressoa com quem busca conteúdo provocativo além do entretenimento superficial. Sem dúvidas, uma camada filosófica que eleva a série a um patamar de relevância cultural que tem potencial pra durar muito tempo.
Nota:





Ok me convenceu, vou assistir hahahahah
E concordo com a parte de que o cérebro das pessoas foi derretido pelo Tiktok, haja paciência.
Sempre ótimo o textão 🫶🏻
Opricatu 💛💛💛
Pior que o Tiktok é a rede social que mais uso atualmente, espero que o dia do derretimento não chegue pra mim 🙏
eu até esqueço q ele existe kkk